Pela janela do carro ele observava as luzes do apartamento acesas. Pensou em ir até lá. Ela talvez não o recebesse, e teria toda razão em fazê-lo. A neblina já tomava conta da noite e o frio invadia o espaço. Ligou o aquecedor do carro, que logo limpava o vidro então embaçado. Esperou até que pudesse ver toda a rua nitidamente e na entrada do prédio alguém saía apressado. Olhou novamente para as janelas do apartamento, agora todas escuras, e então ligou o carro, começou a andar devagar e a seguir o vulto que seguia em passos firmes pela calçada. Sabia que era ela, o jeito de andar, o casaco, as botas, ela sempre se vestia assim. Ela pisava forte e ele conhecia muito bem essa característica: estava ansiosa.
Abaixou o vidro e chamou seu nome, ao que ela se virou mostrando aqueles olhos marejados que pareciam duas pedras, e ele podia até ver o contorno de sua íris tão destacado sempre que ela chorava. Pediu que ela entrasse no carro, mesmo sabendo que a resposta seria negativa. Continuou seguindo-a e então parou o carro, desceu e correu até alcançá-la. Segurou-a pelo braço e pôde ver em sua expressão a reprovação do gesto. Ela não falava, só o encarava e isso era suficiente pra que ele compreendesse que não era bem-vindo ali. Conhecia bem cada traço daquele rosto e sabia que deveria soltá-la e ir embora. Antes que pudesse se afastar, ela mesma forçou para que ele a soltasse e sem mesmo enxugar as lágrimas, virou-se e entrou na primeira farmácia que encontrou, abasteceu-se de analgésicos e calmantes e saiu sem olhar pra trás.
Voltou para o carro e ficou ali, observando enquanto ela subia as escadas, e em seguida as luzes de seu quarto que eram acesas. Arrependeu-se de ter sido tão impulsivo, só piorara as coisas e ela o odiaria mais por isso. Decidiu então ir embora, ligou o rádio e esperou que a música levasse seu pensamentos pra longe dali.
Os comprimidos eram a promessa de uma noite de sono pesado, sem sonhos ou pesadelos, queria apenas desplugar a mente dos últimos dias, esquecer que passara por tudo aquilo. Sentia-se tão injustiçada por estar vivendo aquele inferno, não encontrava justificativa para o fim, para tanto sofrimento e nada a faria conceber que o erro era seu. Suas mãos trêmulas sequer tinham forças para segurar o copo de água, que lançou contra a parede. O som do vidro se quebrando e os cacos caídos no chão à sua frente a trouxeram um minuto de lucidez. Abaixou-se para recolher os pedaços brilhantes e, com os olhos embaçados pelo pranto, não notou a ponta de um dos cacos, cortando-se nele. Gritou. Chorou de dor, de raiva, de tristeza. Ficou ali inerte, vendo o sangue que escorria e tingia o chão. Não teve pressa em se levantar para limpar o corte, no fundo queria sangrar até morrer, mas sabia que esta seria outra injustiça. Nenhuma decepção valia sua vida.