Um ano havia se passado desde o último encontro. Ela já se sentia recuperada do choque, da decepção, do fim. Mas ainda não estava completa de novo. Tentou mudar de vida, refez suas amizades, caía na noite como todo ser livre e desiludido. E nesse tempo, seu romance deu mais alguns poucos passos, que não chegavam sequer a um capítulo:
Escolheram uma tarde morna de abril para a cerimônia. Ambas as famílias achavam que os noivos eram muito novos para o enlace, mas não havia quem os dissuadisse da ideia. Ela mal havia terminado o colegial, e ele há pouco era um jovem que cumpriu com suas obrigações de cidadão em seu país e se alistou no Exército, onde esteve por um ano.
Apesar da pouca idade e experiência no assunto, pois era o primeiro namoro dos dois, em sua época não era tão estranha a formação de uma família nessa faixa etária. E, se seguissem os costumes da época, em breve ela seria uma jovem mãe. Pretendiam ter filhos, dois ou três, e acreditavam nessa fórmula para serem felizes.
Sua entrada na igreja teve algo de etéreo, pois parecia um anjo flutuando até a nave, onde ele a esperava com os olhos mais admirados que um noivo poderia ter diante de sua futura mulher. Seu vestido branco, bordado até o pescoço, os braços cobertos até os punhos, onde luvas de renda escondiam as pequenas mãos, a cauda de metros e metros, o véu cobrindo-lhe o rosto, tudo dava a impressão de que ali havia uma mulher ao seu tempo: reservada, escondida para o marido.
Deram-se os braços e se ajoelharam para a recepção da benção divina e para o sim, o tão esperado sim que ele novamente ouviria da que seria sua única amante, pelo fim de sua curta vida…
Pensava agora em como seguir com a história sem depositar nela sua descrença pelas vidas felizes. Ele morreria, ela teria de seguir sozinha, personagem e autora viveriam da mesma forma, afinal, sabia que o que escrevia era um espelho de si. Estava resolvido, o príncipe de seu romance teria de morrer, assim ela poderia provar que depois da maior das dores, haveria forças, haveria uma vida. No final, não pretendia publicar seu romance, mostrá-lo a alguém, ele seria apenas uma parábola de auto-ajuda, ainda que soubesse que não possuía tais forças ainda. Fechava-se do mundo, pois acreditava não aguentar mais uma queda caso se apaixonasse novamente.